A nova escola da TI 4

Posted by Alê! Sun, 19 Oct 2008 16:26:00 GMT

Muita gente acha que tenho ficado louco. Depois de 10 anos falando de tecnologia, passei, recentemente, a falar apenas de filosofia. Parece efeito de drogas pesadas, mas eu explico.

Ultimamente, na SEA, temos discutido muito a respeito de novos modelos da indústria de TI e, após já alguns meses de discussões, percebemos claramente dois momentos históricos distintos que internamente batizamos de a velha e a nova escola de TI.

The Old School

Old school diz respeito ao modelo de pensamento que predominou na indústria nos primeiros anos desse milênio, talvez até 2006 (+/- 1). Trata-se da época de ouro do J2EE, dos servidores de aplicação monstruosos (à la SAP), das super-arquiteturas de software (aliás, dos milionários arquitetos de software), da overengineering em geral, dos modelos rígidos, proteccionistas, formais e burocráticos de gestão e desenvolviento, a época do RUP, do PMBok, do MPS.br and so forth.

O profissional predominante dessa época em muito se assemelhava a um jazzista. Caras finos, de cultura erudita, pensamento rebuscado e sempre em busca do belo, sem muita preocupação com a satisfação da grande massa consumidora.



A New School

Por new school, em contrapartida, entendemos como sendo uma nova onda de pensamento e valores que, se observada mais ao longe, é facilmente percebida em vários domínios do conhecimento, não apenas na tecnologia.

Falamos aqui da preocupação constante com o retorno do investimento dos clientes, com a simplicidade das soluções a com o desenvolvimento sustentável, a busca pela colaboração e compromisso de todos, os modelos lean, a qualidade inegociável, a valorização do ser humano e toda a filosofia ágil.

Esta nova geração de profissionais é como o chorista. Não menos qualificado tecnicamente que o jazzista, mas muito mais interessado na satisfação do público comum, amante do samba e outros ritmos populares.


#RailsSummit

Não só a SEA tem sentido este momento de transição que o mundo está vivendo, mas também as comunidades técnicas. Algumas, mais maduras que outras mas, no geral, todas em busca de um espaço na nova escola da TI.

Semana passada, estivemos eu, Brunão e Willi, no #RailsSummit, o primeiro evento (inter)nacional de RubyOnRails realizado no Brasil. Não é segredo que tenho raízes profundas na comunidade Java, mas fui "praveradequalé"; e gostei do que vi.

Não, não estou falando que me apaixonei pelo Rails. Isso é papo tecnológico, e eu não tô nem aí pra isso. Não neste post. Gostei mesmo foi da cabeça da pessoas que lá estavam, da filosofia coletiva.

Nunca tinha visto, em um evento tão específico uma abordagem tão ampla, muito mais baseada em valores do que em tecnologia. Eu chutaria que 50% do evento não foi sobre Rails. Além da tecnologia em si, discutiu-se muito sobre a filosofia em questão, empreendedorismo e testes, testes, testes… Adorei isso! A impressão que me deu é que a grande bandeira desta comunidade não é a tecnologia em si, mas os princípios em que acreditam. As tecnologias Ruby e Rails seriam apenas a melhor forma que encontraram para defender seus ideais.

Vou falar do que assisti. Tudo começou com Chad Fowler, falando basicamente da importância de se fazer aquilo que se ama (já discutido em outro post). Ele é músico de formação e Railer por opção. Akita deu uma introdução ao mundo RoR que me caiu como um luva. Não consegui ficar até o final da palestra do Carlos Brando, por causa do calor, mas até o ponto que fiquei, ele falava do duelo entre especialistas e generalistas (outro assunto que tá na minha pauta). Chris Wanstrath, apesar de ter feito um discurso, e não uma palestra, mostrou-se um grande conhecedor da história da computação.

Ao final do primeiro dia, rolou uma espécie de unconference, onde qualquer um poderia falar do que quisesse e, por incrível que pareça, a maioria não falou sobre Rails especificamente. Teve gente que mandou tão bem que virou popstar literalmente da noite pro dia :-).

No dia seguinte, os assuntos predominantes foram testes de software e empreendedorismo. Manoel Lemos, antigo colega do mundo Java, inspirou todos contando sua trajetória com o blogblogs.com.br. Vinícius Teles, o cara da ImproveIt, com um modelo de apresentação nada convencional, deu uma aula de motivação e sucesso. Danilo Sato ratificou a qualidade de seu blog ao falar sobre testes. Fábio Kung, instrutor da empresa Caelum, do amigo Paulo Silveira, mostrou-se um excelente palestrante ao falar do JRuby. E, por fim, Obie Fernandez, contou um pouco do way-of-life de sua empresa (a propósito, já conhece o SEA’s way of life?), que também serviu de inspiração pra muita gente.

Além dessa preocupação incomum com assuntos satélites à tecnologia, a comuindade Rails me impressionou em dois outros sentidos.

Primeiro, a interatividade online da comunidade durante o evento, coisa que eu nunca vi em qualquer evento Java. Pelo IRC, Twitter e blogs, a turma trocou informações instantâneas sobre tudo o que estava rolando. E, graças à agregação realizada pelo blogblogs.com.br, foi possível conhecer o assunto de todas as salas acompanhados da opinião crítica dos que lá estavam. Até novos projetos foram criados, compartilhados e evoluídos durante os dois dias de evento :-P

Segundo, o estilo das apresentações, sempre fora da tradicional estrutura hierárquica de tópicos. A maioria sabe o tanto que eu me interesso por este assunto. Parece que "Presentation Zen" e "The back of the napkin" são livros de cabeceira dessa comunidade. Muito massa.

Um ótimo resumo de todo o evento foi publicado aqui.


Meus parabéns ao Fábio Akita (o Bruno Souza da comunidade Rails) pela coragem e perseverança pra realização do evento. Sabemos bem das dificuldades. Não tenho dúvidas que a comunidade técnica do Brasil acaba de ser presenteada com mais um encontro de qualidade e que tem tudo para se tornar tradição no meio.

Mas afinal, Rails escala ou não? :-P

[]s