Onda, onda, onda, olha a onda... 3
Esse mundo louco da tecnologia é um oceano cheio de ondas que periodicamente vêm e vão. Volta e meia me perguntam quais as melhores ondas para surfar e qual o momento certo de pegá-las. Exatamente, eu não sei, mas tenho uma desconfiança.
A melhor onda
Escolha a onda que aparente lhe der maior satisfação. Estratégias muito ortodoxas, motivadas exclusivamente por retorno financeiro não se sustentam a longo prazo. Já vi esse filme N vezes. Por isso, acho que o melhor mesmo é ficarmos atentos àqueles ventos que sopram sentido aos rumos que queremos seguir. Fazendo o que se gosta, faz-se bem feito. Fazendo bem feito, cedo ou tarde vem o reconhecimento. Se, além da satisfação romântica (pessoal) a escolha lhe trouxer satisfação clássica (financeira), naturalmente você terá atingido posição de destaque naquele mercado.
Se, por razão qualquer, o mercado não estiver ao seu favor, aí ainda lhe resta a possibilidade de fomentá-lo, se estiver disposto a assumir o esforço (tema pra outro blog). Se acaso a onda escolhida começar bem mas quebrar antes do que se esperava, replaneje-se. Não se apegue a planos de longo prazo. Tenha metas, sim mas, antes de tudo, tenha habilidade para readaptação rápida, caso necessário.
Quando entrar (aqui que o bicho pega)
Como no surf, a hora certa de começar a dar braçadas para acompanhamento da marola que está se formando só é descoberta com a experiência. Há o timing exato. Se se entra muito antes, podemos não ter força para acompanhá-la até o seu auge. Esperando muito, o bonde passa e ficamos a ver navios.
Dia desses alguém na SEA comentou que devemos aproveitar as oportunidades que raramente batem às nossas portas. Discordei de imediato, pois acredito que oportunidades nos vêm e vão todo santo o dia. O que nos falta, no entando, é saber percebê-las e aproveitá-las.
Steve Jobs tem um discurso interessantíssimo no Youtube no qual diz que só conseguimos analisar nosso caminho de vida olhando para trás. Por mais que façamos planos futuros, o que somos hoje é consequência do que fizemos no passado e raramente coincide com os planos que tínhamos na época. Nos mundos científico e artístico, isso acontece com frequência também. Grandes méritos só foram atribuídos post mortem. Em seus tempos, quantos grandes pesquisadores não foram perseguidos, queimados ou degolados por serem considerados hereges, mas cujas descobertas serviram de base para todo o conhecimento posterior? Quantos artistas não foram rechaçados em vida, mas tornaram-se ícones após nos deixar?
Coincidentemente, hoje, a Globo irá apresentar um especial sobre o Chacrinha. Hipócritas. O cara foi sacaneado por uma vida inteira e só agora é tido como o divisor de águas da televisão brasileira. Então, nunca saberemos se o que estamos fazendo hoje terá reconhecimento ou não no futuro. E, diante dessa dúvida eterna, resta-nos caprichar ao máximo no hoje, e por isso que eu digo que a decisão romancista do barco profissional a ser tomado é a de maior probabilidade de sucesso pois, naturalmente, quanto se combina trabalho e prazer, esmera-se mais e as chances de referência post mortem tornam-se maiores.

Garanto pra vocês que nenhum dos caras que hoje são líderes de suas comunidades assim o são por consequência de uma estratégia friamente calculada no início de suas carreiras. Dos que eu conheço, todos começaram por paixão ao que faziam. E assim faziam sem qualquer perspectiva de futuro. Por fatalidade do destino e méritos individuais, entretanto, vários deles viram suas bolhas inflarem a velocidades incríveis e, por estarem bem posicionados à época, consagraram-se deuses do assunto, cada um no seu quadrado, obviamente. Exemplos? Software Livre - Sérgio Amadeu, Marcelo Branco. Java - Bruno Souza. Ruby/Rails - Fábio Akita. Python - Jean Ferri. Linux - Marcelo Tosatti. E por aí vai.
O engraçado é que enquanto um ou outro se firma como o ícone do segmento, todo o grupo de convívio se promove. Nos anos 80, várias bandas de rock nacional se despontaram. Coincidência ou não, eram todos próximos entre si. Quando se fala em samba tradicional, a maior parte das grandes referências foram contemporâneas e fazia parte de um mesmo grupo de convivência social. Os grandes mestres da capoeira viveram juntos. Pode até ser coincidência, mas eu prefiro acreditar no poder colaborativo da coletividade, ou cooperativismo.
Pensa assim, existe um bando de gente apaixonada pelo que faz e que faz aquilo por puro prazer (Cartola, no samba. Mestre Pastinha, na capoeira. Renato Russo, no rock.). Daí, de uma hora pra outra, por influência deles próprios ou do dito "mercado", o valor daquilo que faziam sobre às nuvens. A oportunidade aparece pra um, que leva outro, que convida um terceiro, e assim vai sendo promovida todo a rede de relacionamento do assunto. Como resultado final, todos ganham.

Há 10 anos atrás, eu me envolvi com um grupo social desse. Entitulavam-se grupos de usuários Java (JUGs). Na época, tinham por objetivo único a discussão e promoção da tecnologia que acreditavam. Com o passar dos anos, tornaram-se importantíssimas ferramentas políticas de grandes empresas para a difusão de produtos e instrumentos essenciais para a promoção pessoal num mercado que se tornou tão competitivo. Assim como no samba, na capoeira e no rock, os primeiros contemplatos pelas grandes oportunidades, puxaram os demais que viveram o mesmo momento.
Hoje, há várias dessas sementes incudadas por aí que podem germinar a qualquer momento. Qual dará os primeiros frutos? Não sabemos. A única certeza do mercado são suas incertezas. Os muitos céticos sofrem mais, pois não participam da fundação das comunidades e depois forçam a barra para serem considerados seus fundadores.
Logo, encontre o regaço que melhor te acolha e motive, e siga em frente. Se é Java, Ruby, Python, PHP, XP, Scrum, UP, não importa. Há mercado para todos e o destaque de uma ou outra tecnologia depende de vários fatores, inclusive você (já falei que isso é tema pra outro blog, né?). Pois bem, seja lá o que for fazer, faça apaixonadamente que os resultados certamente virão, em maiores ou menores proporções. Só não se esqueça que em todo investimento, ganha-se na compra, e não na venda. Decidir por comprar uma papel depois que todos já o adiquiriram pode ser tarde demais. Oportunidades nem sempre se apresentam como tal. Talvez a chave para sua posição de destaque no mercado futuro pode estar no apoio descompromissado que hoje você dá a alguma comunidade desconhecida. Eis o mistério da fé.
Impressão minha, ou isso é um fiapo de Pirsig? ;-)
Elementar, meu caro Wattson! :-)
Beleza, agora vocês despertaram meu interesse pelo livro. Felas